O setor de óleo de palma na América Latina está em um momento histórico de transição rumo à agricultura regenerativa. Diante dos desafios das mudanças climáticas e das crescentes demandas dos mercados globais, incluindo regulamentações de desmatamento zero, como a Diretiva da UE sobre o Desenvolvimento (EUDR), políticas NDPE (Desmatamento Zero, Turfa Zero, Exploração Zero) e compromissos de descarbonização, o cultivo regenerativo de palma emerge como um modelo de produção sustentável e resiliente às mudanças climáticas, que promete transformar a maneira como produzimos óleo de palma, principalmente em contextos de agricultura familiar (pequenos produtores de palma com propriedades menores que 50 hectares). Entre suas práticas, essa abordagem inclui Sistemas Agroflorestais (SAF) com palma de óleo.

Da teoria à prática: sucesso regional

A América Latina não está apenas discutindo sistemas agroflorestais para o cultivo regenerativo de palma; ela está liderando o caminho globalmente. Experiências regionais demonstram que a integração da palma de óleo com espécies florestais, árvores frutíferas e culturas de ciclo curto não é apenas ambientalmente responsável, mas também tecnicamente viável e economicamente rentável.

No Brasil, o projeto Dendê SAF tornou-se uma referência global. Com 10 anos de implementação, apoiado pela Embrapa, Camta, Natura e CIFOR-ICRAF, a iniciativa demonstrou que o modelo pode ser ampliado com sucesso, criar um setor de óleo de palma mais rentável e resiliente e diversificar a economia das famílias produtoras de palma, como evidenciado pelas conquistas da organização de produtores de Tomé-Açu.

Entretanto, o Peru deu seus primeiros passos por meio do Comitê Central de Produtores de Palma de Óleo de Ucayali (COCEPU), estabelecendo as primeiras parcelas demonstrativas adaptadas à realidade da agricultura familiar no âmbito do Projeto Paisagens Sustentáveis ​​do PNUD. Esses esforços estão agora entrando em uma fase de ampliação com assistência técnica do Grupo de Coordenação para o Óleo de Palma Sustentável, composto pela Earthworm Foundation, Paisajes Futuros – TNC, Swisscontact, Solidaridad e outras organizações da sociedade civil.

Iniciativas semelhantes na Colômbia (Cenipalma), Equador (Propalma) e México (Palma Holístico, Programa Terranova e a experiência Palmelit CIRAD) confirmam que a região está servindo como um laboratório vivo para a inovação no cultivo regenerativo de palmeiras por meio da integração de sistemas agroflorestais.

Por que investir no modelo agroflorestal?

A transição da monocultura tradicional para os sistemas agroflorestais oferece benefícios multidimensionais:

  1. Resiliência climática e de produção: A biodiversidade ajuda a proteger as plantações contra pragas e flutuações de mercado.
  2. Saúde do solo: A dependência de insumos químicos externos é reduzida por meio da melhoria da ciclagem de nutrientes e do aumento da matéria orgânica.
  3. Acesso a novos mercados e fluxos financeiros diversificados: os produtores não dependem mais de uma única fonte de renda, pois as culturas associadas geram fluxo de caixa em diferentes épocas do ano.
  4. Restauração da paisagem: Os sistemas agroflorestais funcionam como “florestas produtivas” que capturam carbono e restauram serviços ecossistêmicos essenciais na região amazônica.
O Caminho para a Escalabilidade
Seminário SAF PALM 2026, “Os Caminhos da Agrofloresta na América Latina”, realizado na cidade de Pucallpa, Peru, nos dias 19 e 20 de março..

Para que essa visão se torne a norma e não a exceção, o setor precisa se alinhar em torno de uma estratégia clara. O recente Seminário SAF PALM 2026, “Os Caminhos da Agrofloresta na América Latina”, realizado em Pucallpa, Peru, nos dias 19 e 20 de março (Organizado pela Earthworm Foundation com o apoio de atores do setor privado, como Cargill e Nestlé, bem como organizações do Grupo Diretivo Peruano para o Óleo de Palma Sustentável, do qual a RSPO é uma aliada estratégica.), gerou reflexões estratégicas importantes que ajudam a definir o roteiro para o futuro:

  • Protocolos técnicos: É essencial desenvolver critérios e diretrizes claros, adaptados a cada contexto local, para orientar os produtores na implementação.
  • Participação e Apropriação: A transição deve ser liderada pelos próprios produtores. Espaços participativos para compartilhamento e validação de informações ajudam a garantir a sustentabilidade do modelo ao longo do tempo.
  • Incentivos e Evidências: A utilização de estruturas de referência para medir o impacto real e gerar evidências técnicas e financeiras facilitará a concepção de incentivos que promovam a produção regenerativa.
  • Um programa específico de Sistemas Agroflorestais para o óleo de palma, envolvendo governos, agências de cooperação, empresas e produtores, faz parte do potencial de expansão que está sendo promovido após o evento.

Embora seja verdade que os Sistemas Agroflorestais tenham sido historicamente estigmatizados pelo cultivo convencional de palma como um modelo de menor produtividade e eficiência a longo prazo, as experiências atuais de expansão confirmam que eles representam uma grande oportunidade para o setor de óleo de palma da América Latina implementar inovação e diversificação econômica na base da cadeia de suprimentos, que vem promovendo cada vez mais essas práticas regenerativas no médio prazo.

O Peru é o país líder na América Latina em número de grupos de Pequenos Produtores Independentes certificados pela RSPO (cerca de 200 membros) e já possui quatro grupos certificados pelo Padrão de Pequenos Produtores Independentes da RSPO (ISH): Aproman, Cocepu, Santa Lucía e ASPASH, além de outros quatro grupos em processo de adesão: Jarpal, Acepat, Unipalma e APACHE.

Nesse contexto, práticas inovadoras como os Sistemas Agroflorestais representam uma alternativa para promover um modelo de produção de óleo de palma diversificado e regenerativo, alinhado com a implementação da RSPO em prol da sustentabilidade, particularmente em relação aos objetivos de compensação e remediação estabelecidos por cada grupo.

Além disso, essas práticas reforçam a competitividade global do setor. Ao adotarmos esses modelos, não estamos apenas produzindo óleo de palma; estamos regenerando solos, promovendo economias resilientes, conservando ecossistemas e paisagens sustentáveis ​​e fortalecendo a competitividade do setor de óleo de palma da América Latina.

* Este evento foi possível graças ao apoio da Cargill, Nestlé, Solidaridad, Industrializadora Oleofinos, Natura, Industrias del Espino (IDE), The Nature Conservancy (TNC), MDA – Mecanismos de Desarrollo Alternos, CIFOR-ICRAF, Earth Innovation Institute, Grupo Palmas e Comitê Central de Produtores de Dendê de Ucayali.

** O evento recebeu financiamento do Amazonia Link, um projeto implementado pela Solidaridad no âmbito do programa AL-INVEST Verde da União Europeia. Seu objetivo é apoiar a preparação de micro, pequenas e médias empresas (produtoras) dos setores de café, cacau e óleo de palma do Peru para o cumprimento do EUDR e a adoção de práticas agrícolas regenerativas.

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